Tenho sede... (João 19:28)
Paulo Nunes e Elton Santana* “Tenho sede...” ... Além das dores, do sofrimento e da cruz, Ele quer nos dizer algo que ultrapassa a necessidade fisiológica. Parece simples, esta frase, este desejo, este pedido..., mas, não é tão simples. Aliás, procuremos entender porque alguém na beira da morte, sabendo que ia morrer, ou seja, dar seu último suspiro, poderia pedir água para beber. Talvés, expressando um desejo muito humano e ao mesmo tempo de profunda espiritualidade. Questionamentos vêem e respostas não encontramos.
O curioso é que mesmo num momento de morte, existe um requinte de crueldade por conta dos soldados, aliás, quem estes soldados representam? Não seríamos nós, homens e mulheres – a humanidade? Não sabemos, mas nos parece que oferecer vinagre ao invés de água, não esta somente na cabeça daqueles soldados daquela época, mas na nossa sociedade contemporânea. Jesus pede água e os soldados ofereceram vinagre. E nós, o que oferecemos a Cristo? Creio que não somos muito diferentes daqueles soldados. Somos também guardadores e defensores do egoísmo, da insensibilidade, da intolerância...
A humanidade de Cristo pede água e a nossa, o que oferece? Diante de sua sede somos capazes de nos compadecermos, realmente, Dele?
Acreditamos que Cristo, depois de ter sofrido muito, carregando aquela cruz e levando tantos insultos, chicotadas, derramado seu sangue pregado naquela cruz, seu suspiro não deveria ser de pedir água, simplesmente, mas de pedir clemência, não para sair daquela dolorosa cruz, pois Ele já havia se convencido de que deveria morrer pela humanidade, fazendo a vontade do Pai, pois acima de tudo, Jesus é obediente. Mas Ele insiste em pedir água: Tenho sede! O pedido não deveria ser de soltarem e deixá-lo fugir? Seu pedido diante da morte não deveria ser de vida e liberdade? É verdade. O que ele pediu foi simplesmente, água.
A sede de Jesus não era de água, mas era uma sede de um pedido de unidade entre Ele e o Pai, era um pedido de respeito, de tolerância e de amor. A sede de Jesus era uma sede, como de uma pessoa a horas no deserto sem encontrar água, numa secura incomensurável. E assim se encontrava Jesus naqueles dois pedaços de madeira. Lembremos do povo que o aplaudiu, deu louvores e honras, hosanas e aleluias, quando ele entrou na cidade de Jerusalém montado num jumentinho. Pois bem, estas mesmas pessoas disseram: Crucifica-o, crucifica-o!
E hoje, fazendo paralelo com nossa realidade, percebemos que o povo ao invés de dar água doce e saborosa, dá vinagre, principalmente, por causa do que a cidade oferece para Deus: jovens se drogando, falências das famílias, relativismo... e muito mais, pois as enumerações são milhares e este papel é pequeno para enumerá-los.
O desafio do Cristo é dar a vida, até por aqueles que o entregaram, prenderam, condenaram, surraram, ofereceram vinagre à sede da alma e o crucificaram. E o nosso desafio é vivermos como irmãos para oferecermos ao Cristo água, mas águas que jorram da sinceridade do coração do homem e não da mediocridade. Águas que limpam e regam a paz e a solidariedade, e não águas que inundam e destroem vidas. As águas que Jesus quer são as mesmas geradas por Ele, Águas Vivas!
A sede sentida pelo Senhor Jesus na Iminência de sua morte aponta para aquela sede originária que carregamos em nosso ser e que é expressa pelo salmista: “Minha alma tem sede de Deus e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus”? (Sl 42,3). Aos pés da cruz, se confrontam a sede de Deus pela humanidade e a sede desta por Aquele.
Recordemos, pois, o encontro solitário de Jesus com a samaritana no qual o Senhor pede a Samaritana que lhe der de beber, então esta assusta-se com este pedido vindo de um judeu, mas o senhor aponta para o interior da samaritana lhe mostrando a sede profunda que ela carregava em seu ser quando diz: “Se tu conhecesse o dom de Deus e quem te pede de beber, tu é que Lhe pediria” (Jo 4,10).
Esse encontro que ocorre no deserto (local que simboliza a sede humana) faz com que a samaritana lembre-se que dentro de si há um desejo (sede) do infinito, uma sede que não pode ser saciada por uma água qualquer. Aquele que com sua sede aponta para a minha sede é a fonte que pode saciar o nosso desejo de Deus, de quem a nossa alma tem sede: “Mas aquele que beber a água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede”(Jo 10,14).
Na cruz, após apontar para o nosso interior e nos revelar a nós o nosso desejo de Deus, ele não nos nega o dom de si e cumpre a sua promessa nos saciando com a água viva que jorra do seu coração transpassado. Nós ainda perguntamos como o Salmista: “Quando terei a alegria de ver a face de Deus”? (Sl 42,3). E Deus nos responde: Na cruz. É no escândalo da cruz que Deus revela seu amor de maneira sublime e sacia a nossa sede de Deus.

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